MUDANÇA

Finalmente, novo e destino final, www.museudocinema.com.br

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Tropa de Elite 2

Elite Squad 2 – José Padilha – Cinemas (2010)

 “É na hora da morte que a gente entende a vida”.

Capitão Nascimento era mesmo um fascista.

Quem me disse isso foi o próprio em Tropa de Elite 2.

Enquanto o roteiro possui brilhantismos como na personagem de Milhem Cortaz, Capitão Fábio, que possui dívida de gratidão com Nascimento e percebe que ele é fichinha dentro da corrupção na polícia, ou na personagem de André Mattos, Fortunato, um apresentador de programas sensacionalistas gordo, alguém?, que depois de virar político bate de acordo com seus interesses corruptos, ou ainda no professor de história que trava uma batalha com Nascimento na vida pessoal e profissional. Por outro lado o roteiro evidencia a fraqueza do herói nacional Capitão Nascimento, “o personagem mais popular do cinema nacional desde a retomada”.

Eu era um dos que acreditava e defendia que Capitão Nascimento não era fascista. Tudo que ele teorizava nas suas famosas frases, eram idéias fatídicas do problema das drogas. Quando ele vociferava que o consumidor de drogas é cúmplice do marginal, o que há de fascismo nisso? Mas parece que o cineasta sentiu as críticas.

O roteiro de Bráulio Mantovani e do próprio Padilha acerta nas personagens que não mudam e erram feio nas que mudam, Nascimento e Mathias. E o pior, talvez tenham mudado pela opinião pública.

Pensei até em analisar o filme não como uma seqüência de Tropa de Elite, e acho que seria um filmão.

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A Rede Social

The Social Network – David Fincher – 2010 (Cinemas)

 “as coisas na internet não são escritas a lápis, elas são eternas, não dá para apagá-las depois”. 

Um brasileiro é o responsável direto pelo provável vencedor do Oscar 2010. Não estamos falando de José Padilha e nem de Fernando Meirelles, dois dos mais próximos a estatueta dourada, falamos de Eduardo Saverin, a fonte de informação de Ben Mazrich, escritor do livro Bilionários por Acaso, adaptado para o cinema no filme A Rede Social.

Eduardo era, ou é, amigo de Zuckerberg, o nerd dono do facebook, na época em que estudavam em Harvard. Enquanto Zuckerberg estava na fossa pelo pé na bunda da namorada e por não ser aceito nas grandes fraternidades (leia festas) do campus, Eduardo era o elo de ligação de Zuck com o que ele sempre quis ser, mas nunca conseguiu. Mas tudo isso é ficção, o verdadeiro Mark vive ainda hoje com a namorada que conheceu nas festas de Harvard, Priscila Chan. 

Primeiro é preciso deixar claro que tanto Mark Zuckerberg como o filme em si são produtos de nossa atual sociedade e onde chegamos, ou seja, pensar nesse filme/personagem há 30 anos seria algo impossível e não por causa da tecnologia. O livro é ruim porque é muito especulativo, e aqui tá a grande sacada de Fincher, fazer do filme o embate jurídico que todos nós acompanhamos, enquanto surgem explicações do fenômeno facebook, porém deixando em segundo plano a moral e a ética de Zuckerberg, uma personagem cheio de erros e acertos, afinal você não consegue 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos.

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Comer Rezar Amar

Eat Pray Love – Ryan Murphy – 2010 – Cinemas

Te dou duas razões para assistir Comer Rezar Amar, a primeira é Julia Roberts, a atriz norte-americana é um ícone, é incrível sua entrega ao papel e como ela se doa, além dela ter uma relação de amor e ódio com a câmera – numa imagem ela pode ser a mulher mais linda do mundo, noutra a mais feia. Para as mulheres serve o mesmo para Javier Bardem interpretando um brasileiro. A segunda razão é Rubens Ewald Filho. O crítico mais popular do Brasil esculhambou o filme. É notória sua disposição em assistir uns 20 filmes por dia, muitas vezes no fast-forward (parente do fast food), seu desprezo é a senha de garantia de qualidade. Todos conhecem sua adoração de filmes antigos, a mim soa óbvio, era quando ele tinha que sentar e ver o filme inteiro. Chegou a justificar sua antipatia diante da fraca bilheteria norte-americana que, para mim, significa o contrário, se os estadunidenses não gostaram, é coisa boa.

Adaptado do romance homônimo e autobiográfico de Elizabeth Gilbert, que no filme é interpretada por Julia, a história roda por 3 culturas para tentar dar sentido a vida da autora, um problema da nossa atual sociedade consumista que já tinha sido explorado em Clube da Luta (1999). Elizabeth tem tudo, um casamento perfeito, uma vida tranqüila, amigos, dinheiro e vida social, mas Elizabeth não sabe, como 90% da população mundial, comer, rezar e amar. A pergunta “se ela tem tudo, não entendo porque é infeliz” já é a resposta.

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Parábola do Mês

Tem uma maravilhosa e velha piada italiana sobre um homem pobre que vai a igreja todo dia e reza perante a imagem de um Santo, implorando: Querido Santo, por favor, por favor, por favor, me deixe ganhar na loteria. Finalmente a exasperada estátua vem a vida e olha pro pedinte e diz: Meu filho, por favor, por favor, por favor, compre um bilhete.
Extraída do filme Comer Rezar Amar (2010) de Ryan Murphy, narrado por Julia Roberts. Nos cinemas.
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A Origem

Inception – Christopher Nolan – 2010 (Cinemas)

“Para baixo é o único jeito de ir para frente.”

Após um começo arrasador com Amnésia (2000), Nolan volta às telonas com seu terceiro filme, antes veio o espetacular e obviamente não lançado no Brasil Following (1998). Posicionando-se entre os realizadores norte-americanos independentes, o cineasta londrino já tinha a idéia do roteiro de Inception antes mesmo de Amnésia, mas o alto orçamento da produção adiou a realização da película. Christopher conseguiu orçamento para Inception quando o astro Leonardo DiCaprio se juntou ao elenco. Um Midas dos blockbusters, DiCaprio participou de 3 das 5 maiores bilheterias da história do cinema, Titanic (1997), O Aviador (2004) e Clube da Luta (1999).

Inception é um filme que te deixa sem respirar durante um pouco mais de 2 horas e meia graças ao talento do editor Lee Smith e ao roteirista e diretor Nolan que soube explorar os pontos centrais da trama e mergulhar o espectador nesse embaralhador de mente sem nos deixar confusos.

 

Inception é também uma homenagem ao cinema, inesperado e surpreso maravilhei-me com as imagens da Pont de Passy, de O Último Tango em Paris (1972) que agora chama-se Pont de Bir-Hakeim, a ponte que corta o rio sena e tem uma cena de destaque na película.

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Michelangelo Antonioni, uma Ode

http://player.vimeo.com/video/15615411

Michelangelo Antonioni uma Ode from museudocinema on Vimeo.

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Eros

Eros –Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e Kar Wai Wong – 2004 (DVD)

Já com a doença que paralisou um lado do seu corpo, Michelangelo Antonioni filmou o segmento O Fio Perigoso das Coisas (mesmo nome de seu livro) do filme Eros que ainda conta com os cineastas Steven Soderbergh e Kar Wai Wong.

Seu curta-metragem traz como abertura desenhos do artista italiano Lorenzo Mattotti ao som do brasileiro Caetano Veloso na canção-homenagem ao cineasta. O erotismo é a principal premissa do filme, mas Antonioni o eleva ao explorar a relação do casal Christopher (Christopher Buchholz) e Cloe (Regina Nemni), e um triangulo amoroso com Linda (a belíssima atriz napolitana Luisa Ranieri, alias, só ela já vale o filme). A nudez é a marca de Michelangelo Antonioni, e as imagens perfeitas.

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Identificação de uma Mulher

Identificazione di una Donna – Michelangelo Antonioni – 1982 (DVD)

Se vê um quadro? Ou seria uma parede? A primeira imagem da película é uma incógnita a primeira vista. E antes mesmo de respirarmos, já somos colocados para pensar pelo mestre. Seria uma brincadeira? Uma pegadinha? Não acredito. Antonioni pensa alto. Ouvimos um barulho. Passa algo pela imagem. Opa, sim, estamos vendo a cena de cima, do alto, e olhávamos o chão do hall de entrada do prédio do diretor Niccolò (Thomas Milian).

Sensacional essa introdução do filme. Errado. Michelangelo Antonioni acabou de nos dar o veredicto de sua película, e que pode se aplicar a toda sua biografia.

Antonioni me deixa a impressão de ser um criador de frames, mas não tão óbvio quanto à frase parece. Ele cria tutoriais, na falta de palavra melhor, em forma de frame, cada imagem tem pelo menos dois significados, ou mais. Vamos pegar o exemplo da cena descrita acima, rapidamente podemos dizer que o cineasta pretendia falar que o que vemos depende do nosso ângulo de visão, e essa afirmação deriva milhões de outras, como a de que nossa percepção daquilo que enxergamos é baseado na nossa cultura, ou que dependendo de nosso estado de espírito nossa visão será distorcida. Ou que todas as visões são distorcidas porque partem de um só ângulo de visão. Ufa. Podemos também propor que Michelangelo falava do poder da imagem em alterar a realidade, ele já explorou isso em Blow-up (1966).

E se a visão vinda de cima é que nos dá a sensação errônea, por ser um tipo de situação rara, de um olhar inquisitivo, amedrontador, de cima pra baixo, o que nesse caso pode ser uma mensagem figurativa para não sermos orgulhosos, vaidosos, não temos esse olhar superior, pois ele engana, equivoca nossa percepção das coisas.

E isso estamos falando apenas do primeiro frame, da primeira imagem, da primeira cena de Identificação de uma Mulher. Esse foi o último longa-metragem feito por Michelangelo Antonioni antes do derrame. Não é considerado uma grande película, mas possui, como todos os outros, uma seqüência memorável, é a cena da neblina em que o casal, o diretor de cinema Niccolò (Milian) e Mavi (Daniela Silverio), discutem dentro do carro e o motorista nada consegue enxergar a frente, uma perfeita alegoria de que ambos não se entendem. Mavi é o rosto que Niccolò procura para seu novo filme, mas ele foi avisado por um estranho que ela não era só dele.Essa é a obra maravilhosa, o legado soberbo que Michelangelo Antonioni nos deixou. Um diretor que nunca precisou, ou quis, ou aceitou dar explicação sobre sua obra. Um cineasta que recebeu vaias com a mesma intensidade com que depois viria arrancar aplausos. Um mestre que transformou filme em cinema, cinema em arte, e arte em obra-prima, o mestre das obras-primas!

Um regente que ensinou ao mundo que não é a procura que interessa, e sim a descoberta da viagem.
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Profissão: Repórter

Esse é o filme pelo qual Jack Nicholson uma vez disse: “É a melhor produção que já participei em toda a minha carreira”.

O cartaz que ilustra esse post é sua versão polonesa criada pelo artista Bartlomiej Kuznicki, mais que um pôster, o polonês Kuznicki conseguiu criar um quadro que retrata o filme melhor que qualquer texto.

Profissione: reporter – Michelangelo Antonioni – 1975 (DVD)

Tem uma cena nesse filme, que na verdade nem deveria ser chamada assim, é uma obra de arte, uma aula de cinema. É a cena final do filme, é um dos momentos mais felizes e brilhantes da sétima arte. Ela é indescritível e intraduzível. Ela une a técnica com a história num exemplo perfeito do que se trata a 7ª arte. Ela é a prova cabal da superioridade cinéfila de Michelangelo Antonioni.

David Locke (Jack Nicholson) acaba de sair do banho. Ainda um pouco molhado ele senta na mesa do pequeno e modesto quarto de hotel. A sua frente dois passaportes chamam a atenção. Close-up nas fotos dos documentos. Num deles David Locke. Noutro David Robertson (Chuck Mulvehill). A semelhança é evidente. A câmera volta-se para Locke, ele está pensativo. Toc-toc. Sua sobrancelha arqueia. Quem será? A câmera continua nele, parece sem pressa de movimentar-se. Ouvimos uma conversa ao fundo, mas aquela voz nos é familiar. Claro. É a conversa de Locke quando conheceu Robertson, seu vizinho de quarto que agora está morto.

Mas Locke tem outros planos em mente e começa a tirar com uma gilete as fotos do passaporte, enquanto isso ouvimos toda a conversa de Locke e Robertson ao fundo. Antonioni também tem outros planos para essa cena.

A câmera se posiciona estrategicamente nas costas de David Locke, sem camisa e suando, ele continua trabalhando para mudar as fotos dos passaportes. Ao lado uma cadeira descansa um gravador ligado, de onde, ao que parece, vem todo o som que ouvimos. Algo chama a atenção do jornalista que olha pro lado fixamente. A câmera, lentamente, vai investigar o que é. A janela do quarto aberta revela para onde Locke olha, a paisagem do deserto africano se abre. Mas não foi isso que chamou a atenção dele. E logo Robertson de camisa azul de botões aberta e calça marrom aparece na varanda atrás da janela. A conversa do gravador continua. Locke de camisa xadrez e calça verde caqui se aproxima, e ficam os dois apreciando aquela bela vista.

Corte para porta com cortina de flores se abrindo. Locke e Robertson entram no quarto, a conversa continua. Locke sai de quadro. A câmera fixa-se em Robertson e aos poucos vai deixando-o e volta-se para Locke, sem camisa, mais suado, continua trabalhando nos passaportes passando cola no lugar das fotos. Close no gravador. Locke aperta o stop.

A cena é quase muda. É um plano único de cerca de 10 minutos. Levou 11 dias da produção e nenhum efeito especial. Eu não me atreveria a escrevê-la, nunca, a única coisa que me atrevo a fazer é deixar o link aqui para vocês contemplarem com seus próprios olhos.

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Zabriskie Point

Zabriskie Point – Michelangelo Antonioni – 1970 (DVD)

ZABRISKIE POINT

“esta é uma área de descanço de lagos antigos depositados há 5 ou 10 milhões de
anos. Estes jazidos foram formados e feitos, empurrados por forças terrestres e
erodidos pelo vento e a água. Contém borato e gesso. Os montes amarelos são
chamados de Manly Beacon.”

Apesar das críticas negativas, de exaltados ensaios sobre a atuação amadora da dupla de protagonistas, e do anuncio público de fracasso feito pela Metro-Goldwyn-Mayer – que havia contratado o talentoso cineasta italiano para dirigir três filmes para o estúdio – Zabriskie Point é um tratado sobre o movimento hippie, seus desdobramentos, e suas conseqüências na sociedade.Configurado em cima do chamado cinema-verdade (cinéma-verité), Antonioni escalou o elenco com a maioria de atores amadores, a exemplo do casal principal, Mark Frechette e Daria Halprin. Frechette doou tudo que recebeu com o filme pra uma comunidade de Boston dedicada a astrologia, depois participou de alguns filmes b italianos e foi detido por assalto a banco. Na prisão, condenado há 15 anos, morreu de forma acidental. Daria, que foi descoberta por Michelangelo Antonioni num documentário underground chamado Revolution (1968), manteve uma relação rápida com Frechette após as filmagens, depois casou e divorciou-se do ator Dennis Hopper, com quem tem 1 filho. Afastou-se do cinema e hoje trabalha com terapia e educação pela arte.

Pelo menos numa cena os detratores da película foram unânimes em reconhecê-la como uma preciosidade psicodélica, é a orgia no deserto encenada pela companhia open theatre, onde vários casais nus fazem sexo cobertos de areia. A narrativa mistura revolução juvenil, panteras negras, filosofia hippie, psicodelismo e capitalismo. Tudo isso passa pelo casal Mark e Daria (seus nomes reais foram utilizados nas personagens, mais um dogma do cinéma-verité). Mark participa do encontro dos estudantes, discute e sai da reunião. Mais tarde ele é visto, e suspeito de atirar num policial, durante o confronto com a policia na revolta estudantil. Daria trabalha na imobiliária Sunnydunes Enterprises. O encontro dos dois é carregado de lirismo e sub referências.

A sensacional trilha sonora psicodélica reúne os grandes nomes da música a época, Pink Floyd, The Grateful Dead, Patti Page, John Fahey e Kaleidoscope. Dizem que Antonioni deu vários palpites nas composições de Roger Waters. Falam também que o cineasta rejeitou a composição L’America de Jim Morrison do The Doors.

O hoje astro Harrison Ford teve suas cenas excluídas na sala de montagem, mas fãs do ator perceberam que na cena da cadeia é possível vê-lo encostado na parede preta perto da porta. O final imaginado por Michelangelo Antonioni era num avião que escreveria a frase no céu, “FUCK YOU, AMERICA”, mas obviamente o presidente da MGM vetou. Ficou o recado.
Zabriskie Point não possui a alma de Antonioni, até pelos problemas com os produtores, censura norte-americana, e pelo tema polêmico, afinal falar contra capitalismo na terra do tio Sam é como detratar o futebol por aqui, mas é sem duvida um filme acima da média, e gosto muito de ler artigos em que o colocam como obra-prima. É por isso que Michelangelo Antonioni era gênio, mesmo quando errava era brilhante.

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Cena de Cinema

Blow-Up (Blow-Up – Michelangelo Antonioni – 1966 – DVD)

Interpretação da cena final:

O Eastmancolor realça ainda mais o verde criado por Antonioni com os cabelos loiros de David Hemmings, o fotógrafo do momento da Swinging London¹. Thomas está desolado. Não consegue encontrar no parque resquícios do corpo que fotografou sem querer. A rag week² invade a tela e o Maryon Park numa gritaria sem sentido. O fotógrafo observa. Os jovens param o jeep em frente às quadras de tênis, dois deles entram, o resto do grupo assiste à partida do lado de fora, pelo alambrado. Nos perguntamos, cadê a bola? Cadê as raquetes?

Thomas vive a vida através de suas fotos. A primeira cena dele no filme é saindo de uma mina juntamente aos trabalhadores e infiltrado lá para fotografar para seu novo livro. Depois observamos o quanto ele se leva a sério em negar fazer fotos para duas garotas que querem seguir carreira de modelo. Nos perguntamos, cadê fotógrafo? Cadê o profissional?

É engraçado notar que todos acompanham a “bola” indo com a cabeça de um lado a outro a ponto de uma espectadora se machucar com a “bola”. O que provoca sorriso irônico e incomodado de Thomas. O fotógrafo começa a perceber que ele faz parte daquele jogo. Sua vida faz parte daquilo. Afinal cadê o corpo Thomas?

A “bola” sai da quadra e vai parar atrás do fotógrafo. Todos olham para ele que sai correndo em direção ao nada, quer dizer, a “bola”, e faz o movimento de jogá-la novamente a quadra. E é justamente aqui que entra toda a grandiosidade do cinema de Michelangelo Antonioni, o soberano da simbiose imagem e roteiro, o mestre dos planos magníficos. Invés de seguir a “bola” contemplamos o rosto de David Hemmings num plano-norte-americano aberto, e para nossa surpresa ouvimos o som da “bola” indo de um lado pro outro. Agora, com um plano amplo e aberto e o fotógrafo no centro da tela, vemos seu desaparecimento sob nossos olhos. Segundo o cineasta seria o autografo de Thomas.

________________
¹ Swinging London é o termo usado para descrever a efervescência cultural e o modernismo de costumes da cidade de Londres, e dali para o mundo, durante a segunda metade dos anos 1960.

² A Rag Week é uma semana que ocorre em várias universidades britânicas, uma vez por ano letivo, em que os estudantes tentam angariar dinheiro, para caridade, através de várias atividades da maneira mais divertida possível.

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Cena de Cinema

Blow-Up (Blow-Up – Michelangelo Antonioni – 1966 – DVD)

Interpretação da cena final:

O Eastmancolor realça ainda mais o verde criado por Antonioni com os cabelos loiros de David Hemmings, o fotógrafo do momento da Swinging London¹. Thomas está desolado. Não consegue encontrar no parque resquícios do corpo que fotografou sem querer. A rag week² invade a tela e o Maryon Park numa gritaria sem sentido. O fotógrafo observa. Os jovens param o jeep em frente às quadras de tênis, dois deles entram, o resto do grupo assiste à partida do lado de fora, pelo alambrado. Nos perguntamos, cadê a bola? Cadê as raquetes?

Thomas vive a vida através de suas fotos. A primeira cena dele no filme é saindo de uma mina juntamente aos trabalhadores e infiltrado lá para fotografar para seu novo livro. Depois observamos o quanto ele se leva a sério em negar fazer fotos para duas garotas que querem seguir carreira de modelo. Nos perguntamos, cadê fotógrafo? Cadê o profissional?

É engraçado notar que todos acompanham a “bola” indo com a cabeça de um lado a outro a ponto de uma espectadora se machucar com a “bola”. O que provoca sorriso irônico e incomodado de Thomas. O fotógrafo começa a perceber que ele faz parte daquele jogo. Sua vida faz parte daquilo. Afinal cadê o corpo Thomas?

A “bola” sai da quadra e vai parar atrás do fotógrafo. Todos olham para ele que sai correndo em direção ao nada, quer dizer, a “bola”, e faz o movimento de jogá-la novamente a quadra. E é justamente aqui que entra toda a grandiosidade do cinema de Michelangelo Antonioni, o soberano da simbiose imagem e roteiro, o mestre dos planos magníficos. Invés de seguir a “bola” contemplamos o rosto de David Hemmings num plano-norte-americano aberto, e para nossa surpresa ouvimos o som da “bola” indo de um lado pro outro. Agora, com um plano amplo e aberto e o fotógrafo no centro da tela, vemos seu desaparecimento sob nossos olhos. Segundo o cineasta seria o autografo de Thomas.

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¹ Swinging London é o termo usado para descrever a efervescência cultural e o modernismo de costumes da cidade de Londres, e dali para o mundo, durante a segunda metade dos anos 1960.

² A Rag Week é uma semana que ocorre em várias universidades britânicas, uma vez por ano letivo, em que os estudantes tentam angariar dinheiro, para caridade, através de várias atividades da maneira mais divertida possível.

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Blow-Up – Depois Daquele Beijo

Blow-Up – Michelangelo Antonioni – 1966 (DVD)

Consagrado na Itália, Michelangelo Antonioni assina com a MGM e o produtor italiano Carlo Ponti para rodar três filmes. Blow-up é o primeiro deles. Para o cineasta, tanto a Londres dos anos 60, como uma sensação de “sensualidade fria e calculista” são fundamentais para o mistério de sua película. O clima erótico fez com que fosse proibido de estrear em alguns países, principalmente por causa da cena da orgia.A genialidade de Antonioni em construir cenas cinematograficamente perfeitas tem aqui seu veículo mais apropriado na história do fotógrafo-celebridade-boçal que trata as pessoas como imagens e vive no mundo materialista. Os frames são de qualidade poucas vezes vista na história do cinema, os enquadramentos perfeitos remetem a profissão do protagonista, uma cena em particular deixa isso evidente, é no momento em que o fotógrafo faz fotos para um editorial de moda em seu estúdio, várias modelos, simetricamente separadas, posam enquanto algumas paredes de vidro dividem o cenário, a câmera de Michelangelo percorre a cena com esmero, não deixando de lado o propósito dela estar ali.

O fotógrafo Thomas (o bom ator David Hemmings que hoje interpreta papéis menores em filmes como Jogos de Espiões (2001), e Gladiador (2000) entre outros), faz fotos num parque londrino quando nota a presença de um casal namorando, suas lentes passam a focar nos amantes, uma bonita jovem e um coroa. Sua insistência acaba despertando a atenção dos pombinhos, e a jovem então vai tirar satisfações e Thomas acaba argumentando que o local é público. Mais tarde, já em sua residência ele recebe a visita da jovem que se chama Jane (Vanessa Redgrave) que faz de tudo para conseguir os negativos das fotos do parque, e acaba sendo enganada por Thomas, que depois percebe que fotografou um assassinato.

Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1967 é o primeiro filme britânico que mostra nudez feminina frontal, assim como é a primeira película de Michelangelo Antonioni falada em inglês. Seu perfeccionismo com a imagem levou a produção a pintar de verde à grama do Maryon Park, pois o diretor não estava contente com a cor real.Blow-up foi baseado no conto “Las Babas Del Diablo” do belga naturalizado argentino Julio Cortázar, que faz uma ponta no filme como mendigo. O escritor já foi outras vezes adaptado para o cinema, inclusive o nosso, com o mediano Jogo Subterrâneo (2005) e A Hora Mágica (1998).

Para quem gosta de fotografias, as ótimas fotos do filme é do excelente fotógrafo londrino Don McCullin, que você conhece mais clicando aqui.

A Rag Week, que está presente em quase todos os momentos da película, inclusive na cena final é uma semana que ocorre em várias universidades britânicas, uma vez por ano letivo, em que os estudantes tentam angariar dinheiro, para caridade, através de várias atividades da maneira mais divertida possível.

A cena final é uma das mais criativas e sensacionais da história do cinema mundial.

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Blow-Up – Depois Daquele Beijo

Blow-Up – Michelangelo Antonioni – 1966 (DVD)

Consagrado na Itália, Michelangelo Antonioni assina com a MGM e o produtor italiano Carlo Ponti para rodar três filmes. Blow-up é o primeiro deles. Para o cineasta, tanto a Londres dos anos 60, como uma sensação de “sensualidade fria e calculista” são fundamentais para o mistério de sua película. O clima erótico fez com que fosse proibido de estrear em alguns países, principalmente por causa da cena da orgia.A genialidade de Antonioni em construir cenas cinematograficamente perfeitas tem aqui seu veículo mais apropriado na história do fotógrafo-celebridade-boçal que trata as pessoas como imagens e vive no mundo materialista. Os frames são de qualidade poucas vezes vista na história do cinema, os enquadramentos perfeitos remetem a profissão do protagonista, uma cena em particular deixa isso evidente, é no momento em que o fotógrafo faz fotos para um editorial de moda em seu estúdio, várias modelos, simetricamente separadas, posam enquanto algumas paredes de vidro dividem o cenário, a câmera de Michelangelo percorre a cena com esmero, não deixando de lado o propósito dela estar ali.

O fotógrafo Thomas (o bom ator David Hemmings que hoje interpreta papéis menores em filmes como Jogos de Espiões (2001), e Gladiador (2000) entre outros), faz fotos num parque londrino quando nota a presença de um casal namorando, suas lentes passam a focar nos amantes, uma bonita jovem e um coroa. Sua insistência acaba despertando a atenção dos pombinhos, e a jovem então vai tirar satisfações e Thomas acaba argumentando que o local é público. Mais tarde, já em sua residência ele recebe a visita da jovem que se chama Jane (Vanessa Redgrave) que faz de tudo para conseguir os negativos das fotos do parque, e acaba sendo enganada por Thomas, que depois percebe que fotografou um assassinato.

Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1967 é o primeiro filme britânico que mostra nudez feminina frontal, assim como é a primeira película de Michelangelo Antonioni falada em inglês. Seu perfeccionismo com a imagem levou a produção a pintar de verde à grama do Maryon Park, pois o diretor não estava contente com a cor real.Blow-up foi baseado no conto “Las Babas Del Diablo” do belga naturalizado argentino Julio Cortázar, que faz uma ponta no filme como mendigo. O escritor já foi outras vezes adaptado para o cinema, inclusive o nosso, com o mediano Jogo Subterrâneo (2005) e A Hora Mágica (1998).

Para quem gosta de fotografias, as ótimas fotos do filme é do excelente fotógrafo londrino Don McCullin, que você conhece mais clicando aqui.

A Rag Week, que está presente em quase todos os momentos da película, inclusive na cena final é uma semana que ocorre em várias universidades britânicas, uma vez por ano letivo, em que os estudantes tentam angariar dinheiro, para caridade, através de várias atividades da maneira mais divertida possível.

A cena final é uma das mais criativas e sensacionais da história do cinema mundial.

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As Armas Secretas

As Armas Secretas – Julio Cortázar – 2009 (Livro)

Inédito no Brasil até o ano passado, o livro de contos As Armas Secretas traz o inesquecível conto As babas do diabo, que inspirou Michelangelo Antonioni a realizar a sua obra-prima mais popular, Blow-Up (1966).

Trazido ao mundo editorial dos órfãos brasileiros pela José Olympio Editora, e vendido na saraiva por módicos R$ 13,90 (compre aqui), As Armas Secretas é publicação feita para estar em biblioteca de cinéfilos.

Cortázar celebra a fotografia no parágrafo: “Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ser ensinada desde muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, bom olho e dedos seguros. Não se trata de estar tocaiando a mentira como qualquer repórter, e agarrar a estúpida silhueta do personagem que sai do numero 10 de Downing Street, mas seja como for quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder este brusco e deliciosos rebote de um raio de sol numa velha pedra, ou a carreira, tranças ao vento, de uma menininha que volta com um pão ou uma garrafa de leite”.

O autor tece sua história sem saber em que pessoa contar, “…se na primeira ou na segunda pessoa, usando a terceira do plural, ou inventando constantemente formas que não servirão para nada”. E preocupado, a todo momento, com o tempo e o formato das nuvens (agora passa uma nuvem quase negra).

Alguns trechos do conto foram traduzidos quase instantaneamente para o filme. “A mulher disse que ninguém tinha o direito de tirar uma fotografia sem permissão, e exigiu que eu lhe entregasse o rolo do filme. Tudo isso com uma voz seca e clara, com sotaque de Paris, que ia subindo de cor e de tom a cada frase. Por mim, tanto fazia dar ou não o rolo do filme, mas qualquer um que me conheça sabe que, comigo, as coisas têm de ser pedidas com jeito. O resultado é que me limitei a formular a opinião de que a fotografia não só não estava proibida nos lugares públicos, como conta com o mais resoluto serviço social e privado”. (insistir cansa, mas acabam de passar duas nuvens desfiadas).
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O Deserto Vermelho

Il Deserto Rosso – Michelangelo Antonioni – 1964 (DVD)

- Porque a fumaça é amarela?
- Porque é tóxica.
- Então se um passarinho voar nela morre?
- Mas os passarinhos já sabem e não passam mais nela.

O diálogo entre mãe e filho do final do filme é revelador da alma de O Deserto Vermelho, sugestivo e sensível.Giuliana (Monica Vitti – o enigma em forma de mulher) é uma mulher neurótica casada com o engenheiro industrial Ugo (Carlo Chionetti). Após sofrer um estranho acidente, ela está às voltas em abrir uma loja. Numa visita a fábrica onde o marido trabalha, ela conhece Corrado (Richard Harris), e se sente atraída por ele.

O primeiro trabalho de fotografia colorida de Michelangelo Antonioni é também o marco inicial de uma de suas principais características, o uso da cor para expressar sentimentos das personagens, e não à toa o filme usa-o até no título. O Deserto Vermelho é amarelo (perigo), verde (renovação), bege/rosa (calma, tranqüilidade), branco (artificial, mentiroso), cinza (expurgo) e, obviamente, vermelho (paixão, traição, desejo). O cineasta usa a cor como trilha sonora, como uma criança que ganhou um brinquedo que tanto queria. A cena da parábola é estarrecedoramente linda.A equipe de produção do filme precisou de trabalho extra como pintores, até as árvores foram retocadas para receber tinta branca, isso porque a película utilizada, Eastmancolor, necessita de branco puro para que possamos enxergar o cinza. Apesar dos esforços, tudo foi em vão, já que o sol estragou tudo, O Deserto Vermelho é um marco do cinema colorido.

Aqui também é o inicio do uso, pelo diretor, de teleobjetivas e zooms para passar a sensação de opressão psicológica e colocar as personagens mais perto um do outro. Em algumas cenas, a personagem de Monica Vitti parece estar agarrada as paredes.A fotografia de Carlo Di Palma, colaborador também de Woody Allen, marca o inicio da parceria com Michelangelo Antonioni, que viria se repetir em Blowup (1966) e Identificação de uma Mulher (1982). O cineasta austríaco Fritz Lang considerava a fotografia da película a mais bela de toda a história do cinema, assim como para Martin Scorsese que o listou entre as dez mais belas.

O Deserto Vermelho surgiu do choque que Antonioni teve ao visitar Ravenna, cidade vizinha a sua Ferrara natal. A paisagem natural que dava forma agora às indústrias deixou o cineasta letárgico e o inspirou para a trama do filme. A neblina e a poluição refletem o comportamento de Giuliana. É uma obra-prima ímpar do cinema mundial.
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O Deserto Vermelho

Il Deserto Rosso – Michelangelo Antonioni – 1964 (DVD)

- Porque a fumaça é amarela?
- Porque é tóxica.
- Então se um passarinho voar nela morre?
- Mas os passarinhos já sabem e não passam mais nela.

O diálogo entre mãe e filho do final do filme é revelador da alma de O Deserto Vermelho, sugestivo e sensível.Giuliana (Monica Vitti – o enigma em forma de mulher) é uma mulher neurótica casada com o engenheiro industrial Ugo (Carlo Chionetti). Após sofrer um estranho acidente, ela está às voltas em abrir uma loja. Numa visita a fábrica onde o marido trabalha, ela conhece Corrado (Richard Harris), e se sente atraída por ele.

O primeiro trabalho de fotografia colorida de Michelangelo Antonioni é também o marco inicial de uma de suas principais características, o uso da cor para expressar sentimentos das personagens, e não à toa o filme usa-o até no título. O Deserto Vermelho é amarelo (perigo), verde (renovação), bege/rosa (calma, tranqüilidade), branco (artificial, mentiroso), cinza (expurgo) e, obviamente, vermelho (paixão, traição, desejo). O cineasta usa a cor como trilha sonora, como uma criança que ganhou um brinquedo que tanto queria. A cena da parábola é estarrecedoramente linda.A equipe de produção do filme precisou de trabalho extra como pintores, até as árvores foram retocadas para receber tinta branca, isso porque a película utilizada, Eastmancolor, necessita de branco puro para que possamos enxergar o cinza. Apesar dos esforços, tudo foi em vão, já que o sol estragou tudo, O Deserto Vermelho é um marco do cinema colorido.

Aqui também é o inicio do uso, pelo diretor, de teleobjetivas e zooms para passar a sensação de opressão psicológica e colocar as personagens mais perto um do outro. Em algumas cenas, a personagem de Monica Vitti parece estar agarrada as paredes.A fotografia de Carlo Di Palma, colaborador também de Woody Allen, marca o inicio da parceria com Michelangelo Antonioni, que viria se repetir em Blowup (1966) e Identificação de uma Mulher (1982). O cineasta austríaco Fritz Lang considerava a fotografia da película a mais bela de toda a história do cinema, assim como para Martin Scorsese que o listou entre as dez mais belas.

O Deserto Vermelho surgiu do choque que Antonioni teve ao visitar Ravenna, cidade vizinha a sua Ferrara natal. A paisagem natural que dava forma agora às indústrias deixou o cineasta letárgico e o inspirou para a trama do filme. A neblina e a poluição refletem o comportamento de Giuliana. É uma obra-prima ímpar do cinema mundial.
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Parábola do Mês

A menina morava numa ilha.

Ficar entre os adultos a aborrecia e dava medo. Os rapazes da sua idade não a agradavam por isso estava sempre só.

Entre as gaivotas e os coelhos selvagens.

Tinha descoberto uma pequena praia afastada onde o mar era transparente e a areia rosa.

Adorava o lugar.

A natureza tinha cores lindas e nada fazia barulho.

Ia embora ao pôr do sol.

Certa manhã surgiu um veleiro.

Os barcos que passavam por lá eram geralmente diferentes. Este era mesmo um veleiro! Dos que atravessavam os mares e tempestades do mundo todo, e talvez fora do mundo.

Visto de longe fazia efeito, de perto parecia misterioso. Não se via ninguém a bordo. Ficou perto por pouco tempo e logo começou a virar, se afastando, silenciosamente, como havia chegado. A menina estava habituada aos caprichos dos homens, nem ligou. Mas apenas chegou à margem, eis que…

Um mistério, sim, dois não. Quem cantava? A praia estava deserta. Mas a voz estava ali. Ora perto, ora longe. Houve um momento que pareceu vir do mar…

Ou de trás das pedras. Tantas pequenas pedras, não dava mais para perceber, eram como se fossem de carne a voz naquele ponto, era muito doce. Mas quem cantava? Todas cantavam. Todas.


* Extraída do filme O Deserto Vermelho (1964) de
Michelangelo Antonioni, narrado em off. Disponível em DVD.
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Parábola do Mês

A menina morava numa ilha.

Ficar entre os adultos a aborrecia e dava medo. Os rapazes da sua idade não a agradavam por isso estava sempre só.

Entre as gaivotas e os coelhos selvagens.

Tinha descoberto uma pequena praia afastada onde o mar era transparente e a areia rosa.

Adorava o lugar.

A natureza tinha cores lindas e nada fazia barulho.

Ia embora ao pôr do sol.

Certa manhã surgiu um veleiro.

Os barcos que passavam por lá eram geralmente diferentes. Este era mesmo um veleiro! Dos que atravessavam os mares e tempestades do mundo todo, e talvez fora do mundo.

Visto de longe fazia efeito, de perto parecia misterioso. Não se via ninguém a bordo. Ficou perto por pouco tempo e logo começou a virar, se afastando, silenciosamente, como havia chegado. A menina estava habituada aos caprichos dos homens, nem ligou. Mas apenas chegou à margem, eis que…

Um mistério, sim, dois não. Quem cantava? A praia estava deserta. Mas a voz estava ali. Ora perto, ora longe. Houve um momento que pareceu vir do mar…

Ou de trás das pedras. Tantas pequenas pedras, não dava mais para perceber, eram como se fossem de carne a voz naquele ponto, era muito doce. Mas quem cantava? Todas cantavam. Todas.


* Extraída do filme O Deserto Vermelho (1964) de
Michelangelo Antonioni, narrado em off. Disponível em DVD.
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